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Mulher tem que votar em mulher? Segundo especialistas em diversidade, sim

Camila Brandalise

De Universa

14/11/2020 04h00

Você acha que mulher tem que votar em mulher? E, caso a resposta seja sim, acredita que o voto deve ser dado a um perfil específico de candidata? Fizemos essas e outras perguntas às leitoras de Universa no Instagram e conversamos com quatro especialistas em gênero e política para saber as opiniões delas em relação ao tema.

Primeiro, vamos à enquete com as nossas seguidoras. Para 66% das que responderam, a prioridade é votar em uma mulher nas eleições deste domingo (15).

Quando questionadas sobre o perfil de candidata que gostariam de eleger, a maioria fala em alguém que "valorize a causa" e "lute pelos interesses" das mulheres. Falam em questões relacionadas ao combate à violência de gênero e ao racismo. Muitas opinam que o perfil ideal é uma mulher negra.

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Imagem: Arte/UOL

A maioria, 59%, também considera uma vitória ver uma mulher eleita, independentemente do perfil. E 52% afirmam que ter uma mulher como vice em uma chapa concorrendo à prefeitura faz diferença.

Sobre a prioridade que a candidata deve ter, ganhou a preocupação com a economia do país. Na pergunta sobre o primeiro critério a se analisar em uma candidata, ganhou o item "partido", seguido por "propostas".

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Imagem: Arte/UOL

Especialistas divergem se deve haver um perfil de candidata a ser priorizado, mas concordam que direcionar o voto para uma mulher é uma ação que faz bem à democracia.

"É importante ter mais mulheres na política por uma questão de representação democrática. Se elas representam mais da metade [52%] da população e do eleitorado no Brasil, elas precisam estar no espaço da política também", afirma Malu Gatto, doutora em ciência política pela Universidade de Oxford, especialista em representação e gênero na América Latina e professora da Universidade College London, na Inglaterra.

"Além disso, um estudo publicado por três pesquisadoras americanas mostrou que uma maior presença das mulheres na política faz com que a população veja a política como um espaço mais democrático", diz Malu, sobre um levantamento promovido pela Universidade de Indiana e divulgado em 2018.

Por que que votar em mulheres?

Essas serão as primeiras eleições para vereador e prefeito em que as cotas femininas de 30% valerão também para a distribuição do fundo partidário. Ou seja, a lei de cotas já existia antes, mas não havia a garantia de dinheiro para as candidatas, o que só veio em 2018. A expectativa é que, com mais verba para investir na campanha, mais mulheres possam se fazer ouvidas e, consequentemente, eleitas.

Atualmente, 13% das câmaras de vereadores e 12% das prefeituras brasileiras são ocupadas por mulheres. O aumento no número de candidaturas de mulheres em relação a 2016 foi pequeno: de 31,6% para 33,6%. Em 2020, surgiram diversos movimentos nas redes sociais incentivando o voto feminino em outras mulheres para tentar elevar esses números.

Além da questão da representação democrática, o efeito de mais candidatas eleitas pode impactar, diretamente, a vida dos cidadãos, como explica a cientista política Mari Abreu, mestre em estudos sobre o Poder Legislativo, pelo Centro de Formação de Câmara dos Deputados, e pesquisadora na área de representação feminina.

"Há diversos estudos, brasileiros e de outros países, que mostram que mulheres em espaços de decisão atuam com mais envolvimento em questões de interesse público, como saúde e educação. Além disso, há dados provando que nações com mais políticas mulheres têm taxas de corrupção menores", afirma a especialista, que também é coordenadora de articulação política da ONG Elas no Poder.

Qualquer eleita vale?

As especialistas consultadas por Universa divergem em relação à importância de eleger mulheres que representam diferentes pautas e espectros políticos. Há quem acredite que esse voto só é merecido caso a candidata abrace a agenda progressista, que fala em justiça social, combate às desigualdades e questões de gênero específicas. Outras apostam na diversidade no Legislativo refletindo as diferenças encontradas na própria sociedade.

Para Lúcia Avelar, cientista política e pesquisadora sênior do Centro de Estudos de Opinião Pública da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), o voto em mulheres só fará diferença se a candidata defender pautas em favor da igualdade de gênero. "Ela tem que estar comprometida com temas que vão além da violência. Por exemplo, nos direitos reprodutivos e na valorização profissional", diz.

A advogada Laura Astrolabio, mestranda em políticas públicas em direitos humanos da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e articuladora do movimento Mulheres Negras Decidem também é incisiva ao dizer que é necessário prezar por um perfil de candidata. "Não vale qualquer uma. Essa pessoa não pode defender o machismo, precisa combatê-lo nas mais diversas pautas, assim como combater o racismo", afirma.

"A candidata tem que ser feminista, antirracista, contra a LGBTfobia. E acredito que sempre haverá opções, por isso, os eleitores precisam pesquisar, principalmente em iniciativas que dão visibilidade a pessoas com esse perfil, como A Tenda e Me Representa", argumenta Laura.

A cientista política Malu Gatto acredita que exigir um ambiente mais democrático é também aceitar que mulheres de diferentes linhas políticas e com pautas distintas ocupem cargos de decisão. "O que os estudos na área mostram é que, para se garantir o processo democrático, devem ser eleitas pessoas com características diversas. O conjunto das mulheres é muito heterogêneo, todas elas deveriam estar representadas, independentemente de ideologia", diz.

E se elas governarem apenas para si?

Mari Abreu, da iniciativa Elas no Poder, diz que escuta com frequência o argumento de eleitores dizendo que não votarão em mulheres por acreditar que elas irão governar só para suas próprias causas. "Isso é um mito", diz, taxativa.

"Não existe vereador atuando em uma área só. Na verdade, ninguém do Legislativo faz isso. Todo mundo discute os projetos que estão na pauta: econômicos, de segurança pública, de educação. E é justamente esse o ponto: não há nada melhor do que a diversidade para falar sobre diferentes temas", afirma.

"Todas as questões sociais vão ter o recorte de gênero e raça, por isso é importante a representação feminina e, principalmente, negra", pontua Laura, que diz estar esperançosa com o resultado das eleições de 2020. "Muitas mulheres se candidataram, negras principalmente, enfrentando o medo e uma estrutura que as barra da política. Espero que, no domingo, dia da votação, estejamos pavimentando o caminho para 2022."